The Bridge

 

 

Ontem, assisti ao documentário The Bridge de Eric Steel de 2006.

Inspirado por um artigo intitulado The Jumpers (Tad Friend para The New Yorker- 2003) o diretor realizou um ano de filmagens nas redondezas da Ponte Golden Gate.  Seu intuito: filmar os últimos momentos das pessoas que escolhiam aquele local como meio para o suicídio. 

Além das imagens realizadas na ponte, foram colhidos depoimentos de parentes e amigos dos que se suicidaram.

É difícil dizer se me parece justo com aquelas pessoas que suas imagens sejam assim tão simplesmente filmadas e distribuídas. Quadro a quadro de quedas cinematográficas, a angústia ao observar a água, os movimentos hesitantes ao longo das grades. O suicídio é um ato solo que pouco compreendemos.

Mas compreendo o papel da Arte, da Comunicação e, principalmente, a curiosidade humana.  Conseguimos nos identificar com aquelas pessoas reais que sofrem e não suportam suas dores.  Devemos nos identificar com esses indivíduos porque a capacidade de nos sensibilizar com a realidade do outro é uma das condições para nossa sanidade social.

As dificuldades enfrentadas por aquelas pessoas são mais que cotidianas: problemas amorosos, financeiros, problemas de auto estima, perda de entes queridos, distúrbios psicológicos. Dores pelas quais passamos todos os dias e a dor pode ser surpreendente.

Qual é a linha que nos separa? Uma ponte. Talvez uma ponte não tão longa como gostaríamos de imaginar.

Vê se me entende pelo menos uma vez, criatura.

 

Em seu livro Império do Grotesco, Muniz Sodrè carateriza nossa relação com as formas denominadas grotescas da estética e o desenvolvimento das mesmas nos meios midiáticos.

“A televisão se especializou num tipo de programa voltado para a ressonância imediata, atuando sobre a imediatez da vida coditiana. E como procedimento básico a TV privilegia fortemente a óptica do grotesco.

Primeiro, porque suscita o riso cruel (o gozo com o sofrimento e o ridículo do outro); segundo, porque a impotência humana, política ou social de que tanto se ri é imaginariamente compensada pela visão de sorteios e prêmios, uma vez que se tem em mente o sentimento crescente de que nenhuma política de Estado promove ou garante o bem -estar pessoal; terceiro, porque o grotesco chocante permite encenar o povo e, ao mesmo tempo, mantê-lo a distância – dão-se voz e imagem a ignorantes, ridículos, patéticos, violentados, mutilados, disformes, aberrantes, para mostrar a crua realidade popular, sem que o choque daí advindo chegue às causas sociais, mas permaneça na superfície irrisória dos efeitos.

Na realidade, as emissoras oferecem aquilo que elas e seu público desejam ver. O sistema televisivo mercadológico constituiu esse público que, ao longo dos anos, tornou-se ele próprio “audiência de TV”.

O telespectador, entretanto, não é vítima, e sim cúmplice passivo de uma situação a que se habituou.

Em sua existência miserável, costuma o telespectador sonhar com o acaso que o levará, pela sorte, a ser chamado pela produção de um “reality show” para transformar em espetáculo a sua aberração existencial e sair de lá com um eletrodoméstico qualquer como prêmio. O grotesco, dessa maneira, é o que arranca o telespectador de sua triste paralisia.

No tocante ao público, não se sustentam as hipóteses de um “voyeurismo” freudiano com relação ao “reality show”, pois o que se evidencia mesmo não é uma sexualidade de fundo, mas a fusão entre a banalidade dos fluxos televisivos e a existência banal dos telespectadores.

Após décadas de rebaixamento de padrões, o público em geral tornou-se esteticamente parte disso que os especialistas chamam de “trash” (lixo).

Daí o império da repetição exaustiva do banal.”

 

Alice – Neco Z Alenky

A beleza de certas histórias está sempre a nos surpreender- não importa nossa idade – e fornece material para releituras geniais, em diversos momentos.

A aventura daentendiada garotinha chamada Alice que é presenteada por Lewis Carroll com cenas espetaculares receberá sua mais nova versão para o cinema. Adoro Tim Burton, mas – não me levem a mal – todo esse movimento tecnológico-digital está ficando um pouco cansativo…

Por isso, resolvi escrever sobre outra Alice; uma Alice, não menos surreal – como todas elas devem ser – mas, um pouco mais sombria, assustadora, e bem menos’ infantil’: trata-se de Neco Z Alenky de Jan Svankmajer de 1988.

O filme é um trabalho incrível das técnicas de live action e stop motion o que traz uma sensação de estranheza e beleza. As personagens, além das tradicionais: Chapeleiro Louco, Coelho Branco, a Rainha de Copas, são seres que poderiam, facilmente, ter saído de algum filme de terror: esqueletos de animais, porcos que choram como bebês, minhocas que falam através de suas dentaduras e outras…

Todo esse universo foi dramaticamente iluminado:  sombras bem definidas>  iluminação vindo do alto, muito contraluz; tudo usado com pouca compensação.  A fotografia é de Svatopluk Maly; volumoso, tenso, como o mundo daqueles que enfiam cogumelos e poções mágicas na boca deve ser.

Neco Z Alenky ainda reserva surpresas, com cenas interessantíssimas não encontradas no livro, mas que dão novo sabor á história; e ainda permite ao espectador uma reflexão sobre esse louco sonho da fofa protagonista. Alice (como é conhecido em versão em inglês) é uma ótima opção para aqueles que apreciam o cinema como arte, a fotografia como função primeira dessa arte e, claro, um excelente livro. 


Direção: Jan Svankmajer

Produção: Peter-Christian Fueter

Escrito por: Lewis Carroll e Adaptação: Jan Svankmajer

Staring: Kristvina Kohoutová (Camila Power – Versão Inglês)

Edição: Marie Zemanoyá

Fotografia: Svatopluk Maly

País: Checoslováquia

A Village Lost and Found – Brian May e Elena Vidal

Este é o nome do livro lançado pelo guitarrista do Queen, Brian May, que tem como tema de pesquisa a Fotografia Estereoscópica.

Um marco na história da fotografia no século 19, a idéia era criar pares de imagens realizadas com objetivas gêmeas com distâncias focais com diferença de 6,3 cm – a distância média entre os olhos humanos. Tais imagens quando admiradas através utensílios binoculares especiais criariam a sensação de tridimensionalidade para o observador.

Em A Village Lost and Found, produto da investigação de mais de 30 anos de May e sua co-autora, historiadora fotográfica Elena Vidal, apresenta estudo exaustivo das cenas em uma aldeia. A vila, cuja identidade foi perdida por 150 anos, só recentemente foi redescoberta por May, em 2003, e ainda existe em Oxfordshire, Inglaterra. A série é completa com imagens recolhidas pela primeira vez juntamente com material relacionado, incluindo muitas fotografias correspondentes da aldeia, como é hoje.

O trabalho publicado no livro é do fotografo Thomas Richard Williams (1824-1871) que começou sua carreira fotográfica na década de 1840 como aprendiz do renomado fotógrafo e inventor  Antoine Claudet. É dito que ele o superou na arte de pintar imagens fotográficas. Pouco depois da ‘Grande Exposição’ ele abriu seu primeiro estúdio fotográfico em Lambeth, em Londres, onde se especializou em fazer retratos daguerreótipos estereoscópicos. Ele também começou a produzir estéreo naturezas mortas e composições artísticas, e em 1856 ele publicou, com a London Stereoscopic Company, a primeira série que incluiu o lançamento do HMS Marlborough em 1855 – um precursor da fotografia de imprensa como a conhecemos hoje. Sua segunda série publicada pela LSC foi o Palácio de Cristal conjunto que incluiu a inauguração do Palácio de Cristal em Sydenham em 1854.

Sua terceira série foi Cenas em Nossa Aldeia, talvez sua obra mais decisiva, e completamente original em conceito. Retratos estéreo TR Williams se tornaram tão populares que sua fama chegou aos ouvidos da Casa Real, e em 21 de novembro de 1856 ele foi contratado para fotografar a Princesa Victoria em seu aniversário de 16 anos. Nos anos seguintes, ele realizou mais retratos Reais, incluindo o casamento da princesa Victoria. No final da década de 1850, a mania estereoscópica atingiu proporções enormes.

Os impressos e publicações foram produzidos em taxas quase alarmante, às vezes às custas da qualidade. Fiel às suas normas e desencantado com o rumo dos acontecimentos, Williams decidiu cessar a produção de placas estéreo, ele sentiu que havia se tornado vulgarizado por imitação.

Brian May, CBE, PhD, FRAS, é um dos membros fundadores do Queen, um renomado guitarrista, compositor, produtor e intérprete. Brian teve que adiar uma carreira em astronomia quando a popularidade de Queen explodiu, mas após 30 anos como músico de rock, foi capaz de retornar à astrofísica e em 2006, completou seu doutorado e realizou projetos como a co-autoria de seu primeiro livro Bang ! A História Completa do Universo com Patrick Moore e Chris Lintott. Estereografia tem sido uma longa paixão na vida de Brian.

Elena Vidal tem trabalhado como conservadora de pinturas em Florença, Espanha e Reino Unido. Graduou-se como um mestrado em conservação fotográfica na Camberwell School of Arts, e posteriormente especializou-se em História da Fotografia Estereoscópica. Desde a reunião Brian May, em 1997, Elena tem colaborado com ele em um estudo de longo prazo em Thomas Richard Williams, e tem publicado vários artigos.

Video: Itau Personalité

O trabalho realizado nesse video do Banco Itaú é,realmente, muito bonito.

 A técnica utilizada é  tilt-shift e com ela temos a impressão de olhar para imagens em miniatura. Em fotografia já era possível ver alguns trabalhos nessa linha (sempre instigante), em video não foi diferente.

Mas, quando estamos diante de um trabalho publicitário, outros elementos o compõem. Em minha opinião, o texto nessa peça está desassociado das imagens.
O efeito da lente – o que a torna tão incrível – é fazer com que as coisas e pessoas tomem aparência dinimuta, quase como brinquedos pequeninos e a primeira frase do comercial é: “Você tem o tamanho dos seus sonhos “. (!)

Então, existe uma sequencia de lindas imagens , com pessoas fazendo coisas que , possivelmente, são importante para elas, mas que foram apresentadas na escala das formigas.. o que, volto a dizer, em minha análise, não fica muito bem.

A narração continua, a respeito de nossos sonhos e estes, minúsculos, sendo observado bem de cima, o que não ajuda em nada o texto que quer enfatizar o quanto são importantes para o banco.

Enfim, o trabalho é lindo, a técnica é incrível, o texto é bem escrito, mas juntos não funcionam.

A necessidade de se observar o global, o todo, de forma a compreender se os elos que fazem parte da corrente estão em harmonia é fator vital para o trabalho de Comunicação na criação, evitando assim desvios na cadeia informativa.